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Pincel
Atômico: conto para Gê.
Voltei pra
cidade que faz silêncio. E onde a terra se abre pra que vejamos
o céu até a vista miopar. Trouxe uma fita no meu bolso.
Tudo aquilo que se amarrava enquanto eu olhava o Sol ir embora.
Gê. Gente não é trocadilho à toa e clichê.
Era, dentre outras coisas, o que me intrigava com toda aquela personalidade
peculiar. Era um alvo, devo confessar. Mas não se tornou o esperado.
Porque Gê é o inesperado. E eu também.
Estávamos entorpecidos. Nos fantasiávamos cerimonial-mente.
Era tudo muito controlado enquanto me equilibrava em meu salto alto. Mas
ele se expandiu...
Era como uma idéia aberta. Aquilo me ofuscava. Eu me amuava. E
nisso, como nunca havia feito antes em toda vida talvez.
Formou-se uma admiração que ainda causava estranhamento
em mim. Era tudo uma dose surrealista. Ele era um sonho sonhando. Ele,
'o ser possível' que me intimidava e era bom.
Não interagíamos. Parecíamos, mas não nos
entendíamos. Era como se cada um colocasse em prateleiras diferentes
um sentimento igual, lavasse o estômago de lados opostos e o relógio
da cozinha tivesse o número de ponteiros a mais que o do outro
mas batesse num ritmo quase igual. Porém, tinha um momento sutil
em que olhávamos nossas arrumações trocadas e riamos
(cúmplices) daquilo.
E nem a gente percebeu isso. Por isso, era desesperador para ele minhas
associações surto-psicóticas. Assim como era limitante
pra mim dar as mãos ao mundo imenso e derrapante.
Eu não ligava e silenciava. Mantinha minha filosofia devassa que
adotara na linearidade anterior. Eu era a desorganização:
o sonho emaranhado, o desejo ensandecido, o cálculo imaturo.
Ele travava e silenciava. E sabia: tirava som de copo, fumava um olhar
perdido e também não se importava muito se não soubesse
ali. Ele sabia de si e, acima de tudo, dos seus delírios. E fazia
daquilo externo, contagiante e, portanto, coletivo.
Nos casamos numa quarta-feira de cinzas que não existiu. Tudo feito
em um minuto. Dei um beijo de boa sorte e deixei um fio de mim com Gê.
E roubei, sem ele ver, um dele pra mim.
Foi experimental. Foi estranho. Foi afeto. Foi pouco. E passou. Hoje lembrei
como cenas de um trailer. E eu que achava que isso não fosse acontecer.
Gê me mostrou que se pode filmar a vida com os olhos.
L.C.
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